TUTTA BRAVA GENTE — ENTRE A FARTURA E A MEMÓRIA
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TUTTA BRAVA GENTE — ENTRE A FARTURA E A MEMÓRIA

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Por Mário Jéfferson Leite Melo03 de maio de 2026

O velhinho de Taubaté acordou com cheiro de manjericão na memória e não no ar, o que já é um sinal dos tempos, porque quando a lembrança é mais viva que a realidade, alguma coisa se perdeu no caminho — e quase sempre não foi por acaso, foi por escolha. Com o chapéu meio torto e a desconfiança no lugar certo, resolveu ir até o Quiririm não só para comer, mas para entender. Porque há festas que alimentam o corpo e há festas que deveriam alimentar a alma — quando deixam.

Chegando lá, viu gente, muita gente, um mar humano como poucas vezes se vê, e isso é bonito, é forte, é sinal de que a cultura ainda pulsa — mas também é sinal de que o comércio aprendeu rápido a vestir fantasia de tradição. Barracas bem montadas, filas intermináveis, cheiro bom, preço alto e sorriso meio calculado. Porque quando a cultura vira vitrine, o povo vira cliente — e nem sempre convidado.

E foi ali, no meio da multidão, que bateu mais forte o sangue italiano herdado do bisavô Pepino Scarpa — daqueles que não perguntavam se você queria mais, simplesmente colocavam no prato até o garfo pedir arrego. Pepino dizia, batendo a mão na mesa: “Mangia! Mangia che ti fa bene!” (Come! Come que te faz bem!) — e não tinha essa de porção calculada, era panela cheia e alegria transbordando. Porque italiano raiz não mede comida — mede carinho.

O velhinho lembrou de um tempo em que não havia barraca numerada, nem estrutura de evento, nem logística de guerra. Era quintal aberto, mesa de madeira, macarrão servido com história e vinho compartilhado com afeto. A nona vinha com aquele sorriso perigoso e dizia “Solo un pochino…” (Só mais um pouquinho…), e lá vinha um prato que desafiava a ciência e a dignidade humana. Porque na cultura italiana, dizer “já estou satisfeito” é só o começo da negociação.

Hoje ele olha as porções alinhadas, bonitas, instagramáveis, e pensa com um certo espanto: será que o italiano moderno ficou com vergonha da própria generosidade? Antes o prato vinha torto, cheio, transbordando, quase desrespeitando a física — hoje vem elegante, equilibrado, mas tímido. “Che miseria…” (Que pobreza…) — cochicha, não da comida, mas do espírito. Porque quando a fartura sai do prato, leva junto um pedaço da alma.

Andando devagar, como quem procura mais do que encontra, ele percebeu que a festa ainda tem sua beleza — os grupos folclóricos, as danças, o sotaque preservado, o esforço de muita gente séria que segura essa história com as mãos. Mas também percebeu o outro lado, aquele que cresce sem pedir licença: o da padronização, do exagero calculado, da conta que assusta. Porque quando o preço sobe demais, a cultura desce do prato e sobe para o palco — distante de quem a criou.

E o velhinho, que conhece o italiano de raiz, sabe que não existe conversa em tom baixo. Italiano fala alto, discute sorrindo, briga gesticulando e termina abraçando. “Ma che stai dicendo?” (Mas o que você está dizendo?) — dizia Pepino, com as mãos desenhando no ar uma ópera inteira. Hoje ele vê gente comendo em silêncio, olhando celular, e pensa: “isso aqui tá parecendo velório com comida boa”. Porque mesa sem conversa não é refeição — é abastecimento.

Teve uma vez que Pepino recebeu um desconhecido, amigo de um amigo, que apareceu sem avisar. Em menos de meia hora tinha comida pra dez, vinho pra vinte e história pra uma vida inteira. E no final ainda soltou: “La porta è sempre aperta!” (A porta está sempre aberta!). Hoje, se bater sem avisar, corre o risco de encontrar um QR Code na porta. Porque hospitalidade que precisa de senha já não é mais acolhimento — é sistema.

E aí o velhinho pensou no tal “Vieni mangiare con noi”, o “venham comer com a gente”, e coçou a cabeça: “com a gente... mas quem é a gente agora?”. Porque quando o morador começa a não caber mais na própria festa, algo se deslocou. Porque festa que expulsa o dono da história vira espetáculo — e espetáculo não cria raiz.

Sentou num banco qualquer, olhando o movimento, e lembrou de uma conversa antiga com Ulysses, quando perguntou o que era vida pública. Ulysses respondeu que vida pública é servir sem se servir — e o velhinho nunca esqueceu. E olhando aquela estrutura toda, pensou se a festa ainda serve à cultura ou se a cultura agora serve à festa. Porque o limite entre valorização e exploração é invisível — mas os efeitos são bem concretos.

O velhinho não é contra o progresso, nem contra organizar a festa, nem contra ganhar dinheiro com trabalho honesto. Mas ele desconfia desse tipo de modernização que vai limpando o excesso, aparando as bordas, tirando o improviso — e junto leva embora o improviso da vida, que é justamente onde mora a verdade. “Troppo perfetto non è naturale” (Perfeito demais não é natural), lembrava Pepino. Porque crescer sem memória é engordar sem saúde.

E antes de ir embora, comendo devagar como quem respeita o prato, ele deixou uma frase no ar, dessas que não precisam de microfone: “Se a comida ainda é italiana, mas o sentimento já não é, então não é a receita que mudou — foi a intenção.” E riu sozinho, lembrando do tempo em que o maior medo não era o preço — era não conseguir comer tudo que te davam. Porque no fim das contas, o verdadeiro exagero italiano nunca foi desperdício — sempre foi amor servido sem limite.

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