VELHINHO DE TAUBATÉ VEREADOR?
Voltar para crônicas

VELHINHO DE TAUBATÉ VEREADOR?

M
Por Mário Jéfferson Leite Melo03 de maio de 2026

O dia amanheceu em Taubaté com aquele frio que entra pelas frestas e um sol tímido pedindo licença, e o velhinho, sem dor nas juntas — o que já é quase um milagre — foi direto ao quintal, acendeu o fogão de lenha e colocou a água para ferver, preparando seu café no coador de pano com a calma de quem ainda respeita o tempo das coisas, porque sabe que nem tudo pode ser feito na pressa — a pressa pode até adiantar o relógio, mas atrasa a vida.

Enquanto o café descia devagar, ele se lembrou da provocação de um amigo: “Desse jeito você ainda vira vereador”, e aquilo ficou ecoando como badalo de sino em dia de vento, fazendo o velhinho rir por fora e pensar por dentro, porque sabia que hoje a política não é só serviço, é exposição permanente, é vitrine sem cortina — há caminhos que começam com aplauso e terminam em julgamento.

Foi então que veio à memória uma cena antiga, dessas que a gente guarda sem saber por quê: ele, mais novo, curioso, perguntou a Ulysses Guimarães o que era, afinal, vida pública; não perguntou por ambição, mas por inocência, como quem quer entender o mundo antes de entrar nele, e Ulysses, com aquele jeito meio cansado de quem já carregou o peso do país nas costas, colocou a mão em seu ombro e respondeu com uma ironia que parecia leve, mas era profunda: “Vida pública? Pública sim… vida, não” — há respostas que não explicam, mas revelam tudo.

Naquele momento o velhinho não entendeu completamente, mas o tempo, esse professor sem diploma, tratou de ensinar, mostrando que entrar na vida pública é como acender uma luz sobre si mesmo e esquecer que não existe interruptor para apagar depois, porque tudo vira comentário, tudo vira suspeita, tudo vira história contada por quem não estava lá — quem vive exposto aprende que nem toda luz ilumina, algumas apenas queimam.

Hoje, ele vê que o julgamento já não espera prova, não depende de processo, não precisa de defesa, nasce pronto na boca do povo e cresce nas redes, onde trocar de carro vira crime e reformar a casa vira escândalo, como se honestidade fosse exceção e não regra — no tribunal da opinião, a verdade entra muda e a mentira já chega gritando.

E o mais curioso, ou talvez o mais perigoso, é que muitos dos que mais julgam são os mesmos que dizem não gostar de política, que se afastam, que não participam, mas apontam o dedo com convicção, esquecendo que o espaço que eles abandonam não fica vazio, alguém sempre ocupa — quem não escolhe seu representante acaba sendo representado por quem nunca escolheria.

O velhinho lembrou de um homem bom, desses de palavra firme e coração limpo, que entrou na política por acreditar que podia ajudar, mas saiu antes do tempo, cansado não da função, mas do peso de ser constantemente mal interpretado, e um dia disse que preferia voltar a ser anônimo do que continuar sendo julgado por versões que não eram suas — nem todo recuo é fraqueza, às vezes é a última forma de preservar a dignidade.

E lembrou também de outro que ficou, resistiu, enfrentou acusações, críticas e olhares atravessados, e aprendeu que, na política, a verdade precisa trabalhar dobrado para alcançar a mentira, que corre solta e leve, sem compromisso com ninguém — a mentira tem pressa, a verdade tem resistência.

Foi então que, quase como trilha sonora da própria reflexão, surgiu na memória a voz inquieta de Raul Seixas, cantando que não queria ser prefeito, não por medo, mas por entender o peso de se tornar aquilo que os outros esperam, esse herói inventado que não pode falhar, que não pode errar, que não pode ser humano — o problema não é ser eleito, é deixar de ser gente depois.

Com o café já no fim e o pensamento mais cheio que a xícara, o velhinho entendeu finalmente o que Ulysses quis dizer lá atrás, porque a vida pública não tira só o sossego, ela invade o silêncio, ocupa o espaço íntimo e transforma cada gesto em interpretação coletiva, como se viver fosse prestar contas o tempo todo — quem vive para todos muitas vezes deixa de viver para si.

E ali, ajeitando o chapéu antes de sair, ele tomou sua decisão com a tranquilidade de quem não precisa provar nada a ninguém: não quer ser vereador, não por medo, mas por consciência, porque sabe que servir ao povo é bonito, mas sobreviver ao julgamento do povo é outra história — governar exige coragem, mas continuar sendo inteiro exige muito mais.

Ver mais crônicas
Compartilhar

Siga a TV Cidade nas redes sociais