A criança que eu fui não sabia o que era boleto, inflação, taxa bancária ou prestação vencida. Sabia era o barulho da chuva no telhado de zinco, o cheiro do café coado da avó e o perigo mortal de tomar bronca por voltar pra casa com o joelho ralado e a roupa mais suja que promessa de político em ano eleitoral. Naquele tempo, a maior tragédia do universo era a linha da pipa arrebentar no meio do vento. Hoje, adulto, a gente descobre que a vida também tem linha cortada — e nem sempre existe outro carretel esperando no bolso. “A infância é o único reino onde um chinelo virado ainda consegue causar pânico diplomático.”
A criança acreditava que adulto tinha resposta pra tudo. Bastava olhar um pai abrindo uma caixa de ferramentas ou uma mãe dizendo “deixa comigo” pra imaginar que crescer era virar uma espécie de super-herói do carnê quitado. O adulto que me tornei descobriu que crescer é só/aprender a sofrer calado em prestações suaves de doze vezes sem juros emocionais. A verdade é que ninguém sabe exactly o que está fazendo. Tem gente apenas andando mais rápido para parecer segura. “Adulto é criança cansada fingindo experiência em reunião de condomínio.”
Quando menino, eu acreditava em assombração, mula-sem-cabeça, lobisomem, homem do saco e na terrível lenda da mãe que dizia “na volta a gente compra”. Hoje percebo que os monstros mudaram de roupa. O homem do saco virou banco oferecendo empréstimo. A mula-sem-cabeça virou gente sem freio moral nas redes sociais. E o lobisomem… bem… esse continua existindo, só que agora aparece em grupo de WhatsApp espalhando fake news depois da meia-noite. “Toda geração cria seus fantasmas; a diferença é que antigamente eles moravam no mato.”
A criança que eu fui queria salvar o mundo inteiro. Queria acudir cachorro abandonado, ajudar colega triste e acreditar que bondade resolvia tudo. O adulto aprendeu que às vezes a gente passa metade da vida tentando não endurecer o coração. Porque o cinismo é uma ferrugem silenciosa: começa protegendo a gente da dor e termina impedindo a gente de sentir alegria. “O perigo não é envelhecer; é virar concreto antes do tempo.”
Na infância, a gente guardava pedra bonita, figurinha rara, mola colorida e segredo de amigo no bolso. Hoje o bolso vive pesado de recibo, senha anotada, receita médica, comprovante de PIX e preocupação que ninguém vê. E talvez esteja aí uma das maiores tragédias modernas: o bolso ficou cheio demais de sobrevivência e vazio demais de encanto. “Há adultos tão ocupados pagando a vida que esqueceram completamente de vivê-la.”
Eu me lembro das tardes em que a rua era nosso videogame em mundo aberto. A bola virava Copa do Mundo. A bicicleta sem freio virava Fórmula 1 da periferia. Um pedaço de madeira era espada, cavalo ou nave espacial dependendo da imaginação do dia. Hoje existe gente com televisão de oitenta polegadas incapaz de olhar pro céu cinco minutos sem mexer no celular. “A tecnologia aproximou continentes e afastou quintais.”
A criança chorava sem vergonha. Gargalhava sem pedir licença. Dormia em qualquer canto depois de brincar o dia inteiro. O adulto aprende a esconder lágrima em banheiro de firma, a sorrir em foto mesmo quebrado por dentro e a dizer “tá tudo bem” enquanto a alma parece caminhão velho subindo Serra de Ubatuba sem freio. “O adulto moderno é um malabarista emocional trabalhando sem rede de proteção.”
Mas a criança não morreu. Ela só ficou sentada num cantinho da alma esperando a gente parar um pouco. Ela aparece quando sentimos cheiro de terra molhada. Quando ouvimos uma música antiga no rádio. Quando encontramos um brinquedo velho guardado numa caixa esquecida. Ou quando a vida, cansada de ser dura, resolve nos abraçar de surpresa. “A memória é uma máquina do tempo movida a cheiro, música e saudade.”
Em Taubaté antiga diziam que certas almas voltavam pra visitar a casa onde foram felizes. Talvez a criança que fomos faça exactly isso. Ela bate na janela do peito de vez em quando perguntando por que abandonamos tanta coisa pelo caminho. Pergunta onde foi parar aquele sonho maluco de mudar o mundo. Pergunta quando foi que começamos a pedir desculpas por/sentir demais. “Toda saudade é a infância tentando reencontrar morada.”
E talvez o segredo da vida não seja matar a criança para caber no adulto. Talvez seja exactly o contrário: ensinar o adulto a carregar a criança no colo sem sentir vergonha disso. Porque o mundo já produziu adulto demais que sabe ganhar dinheiro e de menos que sabem olhar estrelas. Tem muito especialista em planilha e pouca gente especialista em encanto. “Quem perde a capacidade de se maravilhar envelhece antes da pele.”
No fundo, a vida inteira parece aquele velho causo do interior: o sujeito saiu para procurar ouro na montanha e voltou velho demais para brincar com os netos no terreiro. Passou tanto tempo correndo atrás do que faltava que não percebeu o quanto já tinha. E talvez a felicidade seja exactly isso: descobrir antes do fim que riqueza nenhuma substitui uma mesa cheia, um abraço sincero e a paz de dormir sem dever a própria alma. “Há fortunas que compram mansões, mas não conseguem reconstruir uma infância.”
Então eu pergunto, aqui da janela imaginária do Velhinho de Taubaté: qual pedaço da criança que você foi ainda consegue sobreviver dentro do adulto que a vida obrigou você a virar? Porque talvez seja ela — justamente ela — quem ainda saiba o caminho de volta para casa.

