O VELHINHO DE TAUBATÉ E A TEIA QUE COSTURA O BRASIL
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O VELHINHO DE TAUBATÉ E A TEIA QUE COSTURA O BRASIL

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Por Mário Jéfferson Leite Melo17 de maio de 2026

O Velhinho de Taubaté outro dia ficou parado olhando uma linha de costura esquecida sobre a mesa. Dessas antigas, que as avós guardavam em lata de biscoito. E pensou baixinho: talvez o Brasil ainda sobreviva porque existe gente tentando costurar aquilo que os poderosos insistem em rasgar.

Pois é exatamente isso que acontece numa TEIA Nacional dos Pontos de Cultura. Não é apenas um evento. É uma espécie de mutirão invisível para remendar o país sem precisar desligar ninguém da tomada da própria identidade. “Enquanto uns fabricam muros, os Pontos de Cultura ainda insistem em fabricar pontes.”

A TEIA é o maior encontro da Rede Cultura Viva no Brasil. Uma reunião de povos, coletivos, artistas, mestres, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, gente da floresta, da periferia, do barro, da lama, do tambor, da oralidade e da memória. Um ajuntamento humano tão diverso que até os mapas ficam confusos tentando entender como cabe tanto Brasil dentro de um único espaço.

O Velhinho acha bonito quando chamam os Pontos de Cultura de “polos de transformação social”. Mas no fundo, no fundo, ele sabe que muitos deles são verdadeiros postos de socorro da alma brasileira. Lugares onde ainda se ensina criança a tocar tambor em vez de apertar gatilho. Lugares onde uma benzedeira vale mais que muito coach milionário da internet. “O povo simples sempre soube curar feridas que a modernidade nem consegue diagnosticar.”

E desta vez a TEIA acontece em Aracruz, no Espírito Santo, sob o tema “Pontos de Cultura pela Justiça Climática”. Nome bonito, desses que alguns burocratas até tentam transformar em PowerPoint, mas que na prática significa algo muito mais profundo: entender que a Terra está cansada. E que os primeiros a ouvir o grito dela são justamente aqueles que sempre viveram próximos ao chão.

Os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, comunidades tradicionais, moradores das periferias e do campo são os primeiros atingidos quando a água sobe, quando a seca castiga ou quando a floresta cai. Mas ironicamente são também os últimos guardiões de conhecimentos que o tal progresso resolveu desprezar. “O homem moderno criou aplicativos para lembrar de beber água, enquanto o velho indígena ainda sabe conversar com o rio.”

O Velhinho de Taubaté sempre desconfiou de gente que chama tradição de atraso. Porque normalmente quem faz isso nunca ouviu uma história ao redor do fogão a lenha, nunca viu um congadeiro chorar cantando, nunca percebeu que há bibliotecas inteiras escondidas na fala de um mestre popular que sequer frequentou universidade.

E talvez no fundo o Velhinho seja apenas isso: um poeta do cotidiano. Um sujeito antigo que já viu muita coisa bonita desaparecer por falta de registro. Festas que acabaram sem fotografia. Mestres que partiram sem entrevista. Benzedeiras levadas pelo tempo sem que ninguém gravasse suas rezas. Pequenos mundos inteiros apagados como vela esquecida ao vento. Talvez seja por isso que ele escreva com tanto fervor. Porque quem viu a memória morrer uma vez aprende a lutar contra o esquecimento para sempre. “O apagamento cultural quase nunca chega fazendo barulho. Ele entra devagarzinho, como poeira sobre retrato antigo.”

E é justamente para impedir o apagamento dessas memórias que uma equipe da REDE CIDADE DE COMUNICAÇÃO E CIDADANIA embarca rumo à TEIA Nacional. Alguns deles já carregam no corpo a poeira de outras jornadas, como a histórica edição de Natal, em 2014. Agora retornam mais experientes, talvez mais cansados, mas também mais conscientes de que registrar cultura popular é quase um ato de resistência civilizatória.

O desafio dessa turma não é apenas captar imagens. É impedir que histórias desapareçam. É salvar oralidades antes que o silêncio do esquecimento passe o trator por cima. “Há memórias que não cabem em livros. Precisam ser gravadas no olhar, na voz e no coração.” Enquanto muita gente acredita que cultura é apenas entretenimento de palco e luz colorida, os Pontos de Cultura seguem funcionando como pequenas fogueiras acesas no meio da noite brasileira. E talvez seja por isso que sobrevivam. Porque fogueira comunitária não ilumina apenas quem está perto. Ela serve também para avisar aos perdidos que ainda existe caminho.

O Velhinho ouviu dizer que haverá oficinas, rodas de conversa, feiras criativas, debates e encontros de gestão cultural. Mas ele sabe que a verdadeira TEIA acontece nos corredores, nos cafés improvisados, nos abraços demorados e na troca silenciosa entre pessoas que descobriram que a cultura ainda é uma das poucas coisas capazes de impedir que o mundo enlouqueça completamente.

E lá vão eles. Deixando por alguns dias o conforto da casa, os filhos, os cachorros, o arroz do fogão, o ventilador barulhento e até os boletos sobre a mesa, para atravessar o Brasil em busca de algo que dinheiro nenhum compra: pertencimento.

Que essa trupe volte carregada não apenas de imagens, mas de espantos bonitos. Que tragam na bagagem novas amizades, histórias improváveis, risadas cansadas de fim de noite, cheiros de terra molhada, cantos ancestrais e aquela sensação rara de quem percebe que ainda vale a pena acreditar nas pessoas.

Que gravem muito.

Que escutem mais ainda.

Que respeitem os silêncios dos povos antigos.

E que nunca esqueçam que às vezes a câmera mais importante continua sendo o coração humano.

O Velhinho de Taubaté, que já viu muita promessa virar poeira, ainda acredita numa coisa antiga e quase revolucionária: quando um povo preserva sua memória, ele impede que roubem sua alma.

E talvez seja exatamente isso que essa turma esteja indo fazer em Aracruz.

Evitar apagamentos.

Porque câmera nenhuma registra apenas imagens.

Quando usada com respeito, ela também fotografa dignidade.

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